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quarta-feira, 24 de julho de 2013

Quem Te Viu, Quem Te Vê

- Músico! Ele também era músico! – falei para mim mesma depois de ler o obituário.
- Hein? – Carlos falou de dentro do quarto.
- Nada.
- Quem era músico?
- Se você ouviu o que eu falei, porque você disse “hein”?
- Hein?
- Nada.
Carlos entrou para sala e olhou o jornal por cima do meu ombro.
            - Esse José Paulo Cusca não é aquele seu colega de faculdade?
            - Amigo. Amigo de faculdade.
            - Ahn. Sei. – Carlos disse, com um certo tom de ciúme e desprezo que ele nunca conseguiu esconder. Na verdade acho que ele nunca tentou.  - Morreu de quê?
- Não diz – respondi, engasgada.
- Que chato. Novo, não? 
- Pois é...
Eu evitava falar o máximo possível. Qualquer palavra podia trazer uma torrente de lágrimas e eu não queria que isso acontecesse na frente do meu marido.
-  Então... O Antônio me chamou pra andar na praia mais cedo. Ele já ta ali na esquina e...
-  Vai lá.
-   Certeza?
               Confirmei com a cabeça. Carlos ainda me olhou por um tempo, tentando investigar minhas verdadeiras emoções mas logo desistiu. Me deu um beijo na cabeça e se preparou para sair. Eu continuei lendo e relendo o obituário. “Família e amigos lamentam o falecimento de JOSÉ PAULO CUSCA Advogado, pai, marido.” Senti o olhar de Carlos me julgando até ele finalmente sair pela porta. Assim que ouvi o barulho do elevador chegando, me permiti chorar.
Sempre me perguntei o quanto Carlos sabia sobre nós dois. Ele sempre teve ciúme do Zé Paulo, o que me faz achar que ele desconfiava de alguma coisa. Mas ele nunca articulou esse ciúme, nunca me colocou contra a parede. E conhecendo o Carlos bem como eu conheço –  vinte e um anos de casamento não são pouca coisa – se, de fato, ele  desconfiasse da profundidade da minha relação com o Zé Paulo, ele teria me confrontado sobre o assunto.
Senti uma dor aguda. Meu coração apertou e tive que fechar o jornal. Iam cremá-lo naquela tarde mesmo. Decidi que eu ia.
Deixei um marido frustrado em casa e fui para o Caju.
            - Não erra o caminho. Lá é perigoso.
Sempre admirei no Carlos o fato de ele se preocupar com meu bem-estar acima de tudo, mesmo quando ele estava magoado.
Revi alguns amigos de faculdade que não via há anos. Me contaram o que aconteceu: um melanoma devastador.
Meu coração partiu em dois quando vi o filho dele de vinte anos agarrado na mãe, agora viúva, chorando como uma criança.  A viúva, o nome me escapa, me viu e me cumprimentou com a cabeça.
Não fiquei para os discursos. Sabia que eu não ia conter minhas lágrimas e as pessoas desconfiariam. Aos olhos dos outros, éramos colegas – amigos – de faculdade que não nos víamos nunca, a não ser em encontros casuais ou reuniões de ex-alunos.
Mas a verdade não é bem essa.
Chegamos a sair algumas vezes na época da faculdade. Ele vivia com um violão debaixo do braço e eu adorava cantar as músicas que ele tocava. Ele sempre elogiava minha voz, o que provavelmente contribuiu para a atração que eu sentia por ele. Ele era o único que elogiava minha voz cantada. Agora, pensando, vejo que talvez fosse o único que a escutasse.  Mas eu me preparava para um intercâmbio, éramos jovens e decidimos não levar aquilo muito a sério. Me despedi dele com um pouco de dor. No fundo, achava que éramos um par perfeito, mas eu era orgulhosa e jovem demais para admitir isso. Quando eu voltei, ele estava envolvido com a mulher com quem ele acabou casando, e eu logo me vi namorando o Carlos.
Tanto eu quanto ele carregávamos uma certa frustração pelo amor que nunca vivemos. Era óbvio. Depois que nos formamos e seguimos nossos próprios caminhos, sempre que nos encontrávamos, o que não era tão freqüente assim, fazíamos questão de saber da vida um do outro. A conversa era sempre olho no olho. Não importava se a esposa dele – porque eu nunca lembro o nome dela? – ou Carlos estivessem presentes. Éramos amigos, ora. E amigos conversam. Mas eu e Zé Paulo éramos cúmplices no nosso sentimento. Algo como uma nostalgia de um futuro que nunca se realizaria, saudades de algo que nunca aconteceu.
Não que fôssemos infelizes nos nossos casamentos. Eu sempre amei o Carlos e tirando as eventuais discussões e pequenas brigas, comuns em qualquer relacionamento, sempre fomos um casal sólido. Carlos é meu parceiro, minha família. Pelo que me parece, Zé Paulo também era feliz no matrimônio. Mas então porque eu sempre me via pensando no Zé Paulo por dias depois que nos encontrávamos? Será que ele também sentia isso?
A resposta veio dias depois do churrasco onde comemoramos dez anos de formados. Zé Paulo decidiu levar o violão e eu, embalada por caipirinhas demais, churrasco de menos e a ausência do marido, que viajava a trabalho, soltei a voz.
           - Sempre gostei da sua voz cantada – ele disse.
            - Sempre gostei do seu violão – respondi, menos tímida do que eu queria.
Zé Paulo olhou o violão dele.
            - É um violão decente, já vi melhores.
Ri mais do que a ocasião pedia.
Eu estava no escritório quando meu telefone tocou, três, quarto dias depois.
- Dona Lígia, é o José Paulo Cusca, ele não disse sobre o que se trata. A senhora atende?
A secretária provavelmente ouviu o meu sorriso.
            - Claro.
Ele estava meio sem jeito. Disse que tinha gostado de me ver, e que estava com um projeto musical. Disse que queria que eu cantasse.
-   E que projeto é esse?
- Porque a gente não se encontra e eu te falo pessoalmente? Vamos marcar num estúdio ali em Botafogo?
             - Estúdio? Profissional, é?
             - Mais ou menos. Te explico.
 Marcamos um horário. Escolhemos a hora do almoço em dia de semana, melhor horário para fugir dos olhares dos cônjuges. Não que a estratégia tenha sido verbalizada na conversa, mas era óbvio.

Cheguei nervosa ao encontro. Tudo aquilo tinha gosto de adultério. A fachada escura da casa, o coração palpitando, o medo que eu tive de alguém me ver. O estranho é que eu não conseguia me imaginar consumando a traição, nem sequer um beijo. Comecei a me perguntar porque eu havia ido. Ainda dava tempo de me virar e ir embora. Ele nem saberia que eu estive lá. Foi quando o vi por dentro de uma janela para dentro do estúdio. Ele estava de camisa social sem gravata e tocava violão com um sutil sorriso no rosto.
Empurrei a porta pesada do estúdio e entrei no ambiente com ar-condicionado forte e cheiro de carpete.

Ele me abraçou. Foi um abraço sincero mas inocente, e logo fiquei mais a vontade.
            - Senta – ele me disse, me indicando um banco alto. Eu obedeci.
- Me conta desse projeto. Estou curiosa. Espero que não envolva cantar em público. Eu nunca cantaria em público.
            - Não. O projeto é esse.
            - Esse o quê? Não entendi.
            - É isso aqui. Eu e você, toda semana, no estúdio.
Ele riu do meu silêncio.
- Eu sei – ele continuou – é uma proposta estranha. Mas deixa eu te explicar.
Ele começou um desabafo. Sobre como a vida de pai, marido e advogado era ótima mas sugava toda sua energia, que ele não encostava no violão há anos, que a mulher não tinha a menor afinidade para música, que o filho não levava o menor jeito, que quando ele soube que eu ia no churrasco ele levou o violão só para que eu cantasse junto, e terminou dizendo que sentia saudades de mim.
Dessa vez ele não riu do meu silêncio. Demorei um tempo, mas consegui falar.
            - Nós dois somos casados. Isso é quase um affair.
            - Pois é, quase. O que é “quase”, não é. 
            - Você usa esse argumento com seus clientes?
- Por favor. A gente faz um pacto. Aqui, agora. A gente só toca. Só faz música. Uma hora por semana, um violão, um microfone. Eu nunca trairia minha esposa, e acho que você não ia gostar de ter um marido corno.
            - Ah, esse argumento você tem que usar com seus clientes.
            - Lígia, é sério.
Pensei uns minutos. Corríamos um risco tremendo. Nada garantia que resistiríamos. Talvez aquela afinidade pudesse se aprofundar ainda mais e destruir um ou ambos os nossos casamentos. Pensei, pensei, pensei.
E estendi minha mão.
             - Fechado.
E assim começou o que carinhosamente chamávamos de “quase-affair”. Ele levava umas músicas, eu levava outras. Chico Buarque, Tom Jobim, Caetano. Candeia, Nelson Cavaquinho, Zé Quéti. Marchinhas, sambas obscuros.
Às vezes ele me dava um dever de casa.
            - Aprende essa música, esse tom é ótimo para você.
Toda quinta-feira, de meio dia e meio a uma e meia da tarde eu fugia do mundo. Soltava a voz, dava risada. Me sentia bonita, jovem, livre. Lógico que nunca comentei nada disso com o Carlos, e imagino que o Zé Paulo também não dizia nada à… ah, sempre esqueço o nome dela. Era nosso segredo, nossa válvula de escape. Finalmente Zé Carlos e eu tínhamos algo que podíamos chamar de só nosso mas que não trazia complicações maiores. Era gostoso ter um segredo compartilhado com ele.
Um dia me surpreendi quando ele disse que já fazia um ano que nos encontrávamos semanalmente. Depois foram dois, três, quatro.
Comemorarmos nosso quinto ano. Até que um dia, quando eu me preparava para ir embora depois de termos cantado “O que é, o que é”, do Gonzaguinha, Zé Paulo me beijou. De repente, sem nenhum sinal prévio de que aquilo aconteceria. Não sei se ele planejava, se o desejo pegou ele de surpresa tanto quanto o beijo pegou a mim. Eu enrijeci meus músculos. Há anos não sentia a pele de outro homem no meu rosto, o cheiro de outro homem tão forte. Mas depois de alguns segundos eu relaxei e me deixei beijar.
Partimos em silêncio. Não voltei ao trabalho. Fui para a casa e pensei naquilo por horas. Não conseguia me sentir culpada, mas não conseguia me imaginar fazendo aquilo de novo.
Na quinta-feira seguinte, não sabia o que fazer. Passei a manhã inteira pensando se eu ia ou não. Quando bateu meio dia, respirei fundo, peguei as chave do carro e parti.
O rapaz do balcão disse que ele não estava lá e que não havia feito reserva para aquela semana. Agradeci e fui embora. Eu sabia que nosso “quase-affair” tinha chegado ao fim.
Nunca mais vi o Zé Paulo, a não ser um dia na televisão, ele falava qualquer coisa sobre uma aquisição de um banco por outro. Não lembro bem. Não o via já há uns sete anos e fiquei chocada o quanto ele havia envelhecido. O que me entristeceu mais ainda foi que ele pensaria o mesmo se ele me visse.
E aí ontem, um belo domingo de sol no verão do Rio de Janeiro, abro o obituário e lá está o nome dele, estampado em letras garrafais. JOSÉ PAULO CUSCA. Advogado, pai, marido.

E músico.

Um comentário:

  1. Resquícios de um passado no futuro do pretérito. Com música.

    Esses são imortais.

    Enterra logo antes que acorde.

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