- Músico! Ele
também era músico! – falei para mim mesma depois de ler o obituário.
- Hein? – Carlos
falou de dentro do quarto.
- Nada.
- Quem era músico?
- Se você ouviu o
que eu falei, porque você disse “hein”?
- Hein?
- Nada.
Carlos entrou para
sala e olhou o jornal por cima do meu ombro.
- Esse José Paulo Cusca não
é aquele seu colega de faculdade?
- Amigo. Amigo de
faculdade.
- Ahn. Sei. – Carlos
disse, com um certo tom de ciúme e desprezo que ele nunca conseguiu esconder.
Na verdade acho que ele nunca tentou.
- Morreu de quê?
- Não diz – respondi, engasgada.
- Que chato. Novo, não?
- Pois é...
Eu evitava falar o máximo possível. Qualquer
palavra podia trazer uma torrente de lágrimas e eu não queria que isso
acontecesse na frente do meu marido.
- Então... O Antônio me chamou
pra andar na praia mais cedo. Ele já ta ali na esquina e...
- Vai lá.
- Certeza?
Confirmei com a cabeça. Carlos ainda me olhou por um tempo, tentando investigar minhas verdadeiras emoções mas logo desistiu. Me deu um beijo na cabeça e se preparou para sair. Eu continuei lendo e relendo o obituário. “Família e amigos lamentam o falecimento de JOSÉ PAULO CUSCA Advogado, pai, marido.” Senti o olhar de Carlos me julgando até ele finalmente sair pela porta. Assim que ouvi o barulho do elevador chegando, me permiti chorar.
Sempre me
perguntei o quanto Carlos sabia sobre nós dois. Ele sempre teve ciúme do Zé
Paulo, o que me faz achar que ele desconfiava de alguma coisa. Mas ele nunca
articulou esse ciúme, nunca me colocou contra a parede. E conhecendo o Carlos
bem como eu conheço – vinte e um anos
de casamento não são pouca coisa – se, de fato, ele desconfiasse da profundidade da minha relação com o Zé
Paulo, ele teria me confrontado sobre o assunto.
Senti uma dor aguda. Meu coração apertou e tive que fechar o jornal. Iam cremá-lo naquela
tarde mesmo. Decidi que eu ia.
Deixei um marido
frustrado em casa e fui para o Caju.
- Não erra o caminho. Lá é perigoso.
Sempre admirei no
Carlos o fato de ele se preocupar com meu bem-estar acima de tudo, mesmo quando
ele estava magoado.
Revi alguns amigos
de faculdade que não via há anos. Me contaram o que aconteceu: um melanoma
devastador.
Meu coração partiu
em dois quando vi o filho dele de vinte anos agarrado na mãe, agora viúva, chorando
como uma criança. A viúva, o nome
me escapa, me viu e me cumprimentou com a cabeça.
Não fiquei para os
discursos. Sabia que eu não ia conter minhas lágrimas e as pessoas
desconfiariam. Aos olhos dos outros, éramos colegas – amigos – de faculdade que
não nos víamos nunca, a não ser em encontros casuais ou reuniões de ex-alunos.
Mas a verdade não
é bem essa.
Chegamos a sair
algumas vezes na época da faculdade. Ele vivia com um violão debaixo do braço e
eu adorava cantar as músicas que ele tocava. Ele sempre elogiava minha voz, o
que provavelmente contribuiu para a atração que eu sentia por ele. Ele era o
único que elogiava minha voz cantada. Agora, pensando, vejo que talvez fosse o
único que a escutasse. Mas eu me
preparava para um intercâmbio, éramos jovens e decidimos não levar aquilo muito
a sério. Me despedi dele com um pouco de dor. No fundo, achava que éramos um
par perfeito, mas eu era orgulhosa e jovem demais para admitir isso. Quando eu
voltei, ele estava envolvido com a mulher com quem ele acabou casando, e eu
logo me vi namorando o Carlos.
Tanto eu quanto
ele carregávamos uma certa frustração pelo amor que nunca vivemos. Era óbvio.
Depois que nos formamos e seguimos nossos próprios caminhos, sempre que nos
encontrávamos, o que não era tão freqüente assim, fazíamos questão de saber da
vida um do outro. A conversa era sempre olho no olho. Não importava se a esposa
dele – porque eu nunca lembro o nome dela? – ou Carlos estivessem presentes.
Éramos amigos, ora. E amigos conversam. Mas eu e Zé Paulo éramos cúmplices no
nosso sentimento. Algo como uma nostalgia de um futuro que nunca se realizaria,
saudades de algo que nunca aconteceu.
Não que fôssemos infelizes
nos nossos casamentos. Eu sempre amei o Carlos e tirando as eventuais
discussões e pequenas brigas, comuns em qualquer relacionamento, sempre fomos
um casal sólido. Carlos é meu parceiro, minha família. Pelo que me
parece, Zé Paulo também era feliz no matrimônio. Mas então porque eu sempre me
via pensando no Zé Paulo por dias depois que nos encontrávamos? Será que ele
também sentia isso?
A
resposta veio dias depois do churrasco onde comemoramos dez anos de formados.
Zé Paulo decidiu levar o violão e eu, embalada por caipirinhas demais,
churrasco de menos e a ausência do marido, que viajava a trabalho, soltei a
voz.
- Sempre gostei da sua voz
cantada – ele disse.
- Sempre gostei do seu violão
– respondi, menos tímida do que eu queria.
Zé Paulo olhou o
violão dele.
- É um violão decente, já vi
melhores.
Ri mais do que a
ocasião pedia.
Eu estava no
escritório quando meu telefone tocou, três, quarto dias depois.
- Dona Lígia, é o
José Paulo Cusca, ele não disse sobre o que se trata. A senhora atende?
A secretária provavelmente ouviu o meu sorriso.
- Claro.
Ele estava meio sem jeito. Disse que tinha
gostado de me ver, e que estava com um projeto musical. Disse que queria que eu
cantasse.
- E que projeto é esse?
- Porque a gente não se encontra e eu te
falo pessoalmente? Vamos marcar num estúdio ali em Botafogo?
- Estúdio? Profissional,
é?
- Mais ou menos. Te
explico.
Marcamos um horário. Escolhemos a hora do
almoço em dia de semana, melhor horário para fugir dos olhares dos cônjuges. Não
que a estratégia tenha sido verbalizada na conversa, mas era óbvio.
Cheguei nervosa ao encontro. Tudo aquilo
tinha gosto de adultério. A fachada escura da casa, o coração palpitando, o
medo que eu tive de alguém me ver. O estranho é que eu não conseguia me
imaginar consumando a traição, nem sequer um beijo. Comecei a me perguntar
porque eu havia ido. Ainda dava tempo de me virar e ir embora. Ele nem saberia
que eu estive lá. Foi quando o vi por dentro de uma janela para dentro do
estúdio. Ele estava de camisa social sem gravata e tocava violão com um sutil
sorriso no rosto.
Empurrei a porta pesada do estúdio e entrei
no ambiente com ar-condicionado forte e cheiro de carpete.
Ele me abraçou. Foi um abraço sincero mas
inocente, e logo fiquei mais a vontade.
- Senta – ele me disse, me
indicando um banco alto. Eu obedeci.
- Me conta desse projeto. Estou curiosa.
Espero que não envolva cantar em público. Eu nunca cantaria em público.
- Não. O projeto é esse.
- Esse o quê? Não entendi.
- É isso aqui. Eu e você,
toda semana, no estúdio.
Ele riu do meu silêncio.
- Eu sei – ele continuou – é uma proposta
estranha. Mas deixa eu te explicar.
Ele começou um desabafo. Sobre como a vida
de pai, marido e advogado era ótima mas sugava toda sua energia, que ele não
encostava no violão há anos, que a mulher não tinha a menor afinidade para
música, que o filho não levava o menor jeito, que quando ele soube que eu ia no
churrasco ele levou o violão só para que eu cantasse junto, e terminou dizendo
que sentia saudades de mim.
Dessa vez ele não riu do meu silêncio.
Demorei um tempo, mas consegui falar.
- Nós dois somos casados.
Isso é quase um affair.
- Pois é, quase. O que é
“quase”, não é.
- Você usa esse argumento
com seus clientes?
- Por favor. A gente faz um pacto. Aqui,
agora. A gente só toca. Só faz música. Uma hora por semana, um violão, um
microfone. Eu nunca trairia minha esposa, e acho que você não ia gostar de ter
um marido corno.
- Ah, esse argumento você
tem que usar com seus clientes.
- Lígia, é sério.
Pensei uns minutos. Corríamos um risco
tremendo. Nada garantia que resistiríamos. Talvez aquela afinidade pudesse se
aprofundar ainda mais e destruir um ou ambos os nossos casamentos. Pensei,
pensei, pensei.
E estendi minha mão.
- Fechado.
E assim começou o
que carinhosamente chamávamos de “quase-affair”.
Ele levava umas músicas, eu levava outras. Chico Buarque, Tom Jobim, Caetano.
Candeia, Nelson Cavaquinho, Zé Quéti. Marchinhas, sambas obscuros.
Às vezes ele me
dava um dever de casa.
- Aprende essa música, esse tom é
ótimo para você.
Toda quinta-feira,
de meio dia e meio a uma e meia da tarde eu fugia do mundo. Soltava a voz, dava
risada. Me sentia bonita, jovem, livre. Lógico que nunca comentei nada disso
com o Carlos, e imagino que o Zé Paulo também não dizia nada à… ah, sempre
esqueço o nome dela. Era nosso segredo, nossa válvula de escape. Finalmente Zé
Carlos e eu tínhamos algo que podíamos chamar de só nosso mas que não trazia
complicações maiores. Era gostoso ter um segredo compartilhado com ele.
Um dia me
surpreendi quando ele disse que já fazia um ano que nos encontrávamos
semanalmente. Depois foram dois, três, quatro.
Comemorarmos nosso
quinto ano. Até que um dia, quando eu me preparava para ir embora depois de
termos cantado “O que é, o que é”, do Gonzaguinha, Zé Paulo me beijou. De
repente, sem nenhum sinal prévio de que aquilo aconteceria. Não sei se ele planejava, se o desejo pegou ele de
surpresa tanto quanto o beijo pegou a mim. Eu enrijeci meus músculos. Há anos
não sentia a pele de outro homem no meu rosto, o cheiro de outro homem tão
forte. Mas depois de alguns segundos eu relaxei e me deixei beijar.
Partimos em
silêncio. Não voltei ao trabalho. Fui para a casa e pensei naquilo por horas.
Não conseguia me sentir culpada, mas não conseguia me imaginar fazendo aquilo
de novo.
Na quinta-feira
seguinte, não sabia o que fazer. Passei a manhã inteira pensando se eu ia ou
não. Quando bateu meio dia, respirei fundo, peguei as chave do carro e parti.
O rapaz do balcão
disse que ele não estava lá e que não havia feito reserva para aquela semana.
Agradeci e fui embora. Eu sabia que nosso “quase-affair” tinha chegado ao fim.
Nunca mais vi o Zé
Paulo, a não ser um dia na televisão, ele falava qualquer coisa sobre uma
aquisição de um banco por outro. Não lembro bem. Não o via já há uns sete anos
e fiquei chocada o quanto ele havia envelhecido. O que me entristeceu mais
ainda foi que ele pensaria o mesmo se ele me visse.
E aí ontem, um
belo domingo de sol no verão do Rio de Janeiro, abro o obituário e lá está o
nome dele, estampado em letras garrafais. JOSÉ PAULO CUSCA. Advogado, pai,
marido.
E músico.
Resquícios de um passado no futuro do pretérito. Com música.
ResponderExcluirEsses são imortais.
Enterra logo antes que acorde.