- Sim! - respondi empolgadamente. - Estou louca para ver esse show. É o novo projeto do pessoal do Gorillaz, não é? O Cameron vai querer ir com certeza também.
Assim se estabeleceu o nosso compromisso cultural de terça a noite. Aproveitando a visita de outros primos e do meu afilhado, fui passar dois dias na casa da minha mãe, aonde eles estão hospedados, a duas horas de distância de NY. Quando meu afilhado perguntou porque eu tinha que voltar cedo, respondi. Tenho um show maravilhoso para ir, já tenho ingresso. Minha mãe ficou chateada porque não inclui meu irmão no programa.
- Ele está de férias, adora essas coisas. Tenta comprar pra ele também, por favor!
De última hora, conseguimos um ingresso para o meu irmão. Tudo muito corrido - ele teria que tomar banho e sair de casa naquele instante para pegar o trem e chegar a tempo. Enquanto isso, eu estava na estação de trem, para pegar o meu transporte de volta, tudo com bastante tempo para eu aproveitar esse tão sonhado espetáculo.
Ligo para o meu irmão: ele vai pegar o trem dez minutos depois do meu. Combinamos de nos encontrar na estação e irmos para o teatro juntos.
Cinco minutos depois, entre as estações "Nada" e "Coisa Alguma", o meu trem quebra.
Começo a ficar tensa: não vai dar tempo de eu chegar antes do show começar. Vou atrasar! Vai ter gente me esperando! A minha ansiedade vai crescendo, crescendo. Minha bateria do celular vai acabando, acabando.
Fico esperando no meio do nada num calor infernal até outro trem vir nos buscar.
Enquanto isso, Cameron me manda uma mensagem:
- Porquê você está me arrastando para uma ópera chinesa?
- Não é ópera chinesa, meu amor. É um espetáculo meio circense, adaptado pelo pessoal do Gorillaz. Você vai amar. Vai por mim -, respondi, já pensando nos pontos que eu ia ganhar com o maridão, no beijo que ele ia me dar no final, me agradecendo pela experiência cultural inédita.
- Na internet diz que é ópera chinesa.
Eu, do alto do meu moralismo e senso de falsa superioridade cultural, respondo:
- Mesmo se for. Pare de preconceitos. Você está se baseando no estereótipo que você tem de óperas chiensas. É 2013, as coisas mudaram. Você vai ver - disse, já não tão segura do que eu estava falando.
O trem chega na estação às 20h, exatamente o horário que o show começa. Corro do trem para o metrô, para o outro metrô sem ar-condicionado, esbarrando em velhos, crianças e mulheres, pulando muros e fugindo de cães raivosos. "Preciso chegar no show a tempo", pensava. "Nada pode me deter".
Saio na estação do teatro, vejo o Cameron e o meu irmão pacientemente me esperando do lado de fora. Chego suando bicas - está quarenta graus, úmido e eu estou carregando uma mochila de 12kg. Minhas primas e minha tia já estão do lado de dentro. Eu as invejo por cada minuto desse espetáculo maravilhoso que elas estão experenciando e eu não.
Entramos no teatro com quase meia hora de atraso.
Sentamos, e olhamos para o palco.
Trata-se, claro, de uma ópera chinesa. E, infelizmente, o estereótipo do que eu tinha do que é uma ópera chinesa estava absolutamente correto.
Aí eu começo a pensar na ironia daquilo tudo.
Na correria, no estresse que senti quando quase perdi o trem, no estresse ainda maior quando o trem quebrou, na preocupação do meu irmão chegar a tempo.
E eu começei a rir. Rir muito. Ataques de riso. Lágrimas e mais lágrimas. Meu irmão e Cameron me olham com uma certa inveja. "Pelo menos alguém está se divertindo", eu leio em seus olhares.
Saímos do teatro e compartilhamos a nossa incredulidade. Tudo era ruim: a dança, a música, a história.
Eu e Cameron, irritados com a perda de tempo, distribuímos patadas no metrô. Verdadeiros nova-iorquinos.
Chegamos em casa e Cameron, sem me perguntar nada, colocou uma luta antiga de MMA. Eu vi que ele precisava daquilo. Qualquer outro dia eu reclamaria.
Mas hoje não.
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