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quarta-feira, 31 de julho de 2013

Ando Tão Á Flor da Pele

Não é fácil ter a vida fácil.

Sim, eu sofro do complexo de culpa. Também pudera, sou filha de um judeu com uma católica. Culpa ao quadrado. Culpa ad infinitum.

Estou presa num ciclo vicioso. Sinto que a vida está difícil. Me preocupo com a grana do aluguel, que nem sempre está garantida. Me estresso com a minha festa de casamento vindoura. Sinto saudades dos amados, que são muitos, e estão muito distantes.

Daí penso que esses são todos problemas pequenos, no plano cósmico. Eu tenho um teto aonde morar, um futuro-marido que, diferente de mim, tem emprego fixo. Sou sortuda o suficiente para poder ter uma linda festa de casamento. Tenho muitos amigos queridos e amados, mesmo que distantes. Aí fico culpada por estar tão emotiva, o que me deixa mais emotiva ainda.

E, ao invés de canalizar essas emoções todas nos projetos nos quais tenho que trabalhar, fico completamente paralisada. Não posso nem usar o clichê de que fico encarando a página em branco. Eu evito essa página em branco como um vampiro (e alguém em início de namoro) evita alho. Passo longe do meu computador. Sinto ele me olhando (culpa!), me chamando para o trabalho. E eu evito, procrastino. Tento arrumar outras coisas para fazer. A casa nunca esteve tão arrumada, e é a primeira vez desde que saí da casa dos meus pais que meu cesto de roupa suja está vazio.

Aí me sinto improdutiva e, portanto, culpada, e aí mais uma etapa do ciclo se cria.

O que fazer? Reclamar no blog, é claro. Pois aí eu tenho que encarar o quão boba eu estou sendo. Aí tenho que pensar nos meus amigos, principalmente no Claudio, que vão pensar "mas ela tá reclamando de quê?". E eu lhes respondo: NÃO SEI! Eu concordo com o Claudio de que eu estou sendo, na palavra que ele provavelmente escolheria, mongol.

Ouvi das duas pessoas que mais me conhecem no mundo que eu estou me cobrando demais. É o mês do meu casamento, a próxima etapa da minha carreira não está definida, chegou a hora de encarar que sou gente grande. É normal eu estar sentindo o que quer que seja intensamente. É quem eu sou, é o por quê de eu fazer o que eu faço.

O que me leva a pensar, também, em porque eu decidi ser artista. Quero dizer que acho isso muito pretensioso: "sou artista". Mas é o que eu faço: arte. Não só arte, pois trabalho com entretenimento, e, para mim, entretenimento é tanto business quanto arte, mas é arte. Como artista, eu não posso ter medo de sentir intensamente, seja lá o que for. Alegria, ansiedade, tristeza, desespero. Eu gosto de sentir, mesmo quando dói. Eu me deixo sentir.

Ih, olha lá. A página não está mais em branco.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Quem Te Viu, Quem Te Vê

- Músico! Ele também era músico! – falei para mim mesma depois de ler o obituário.
- Hein? – Carlos falou de dentro do quarto.
- Nada.
- Quem era músico?
- Se você ouviu o que eu falei, porque você disse “hein”?
- Hein?
- Nada.
Carlos entrou para sala e olhou o jornal por cima do meu ombro.
            - Esse José Paulo Cusca não é aquele seu colega de faculdade?
            - Amigo. Amigo de faculdade.
            - Ahn. Sei. – Carlos disse, com um certo tom de ciúme e desprezo que ele nunca conseguiu esconder. Na verdade acho que ele nunca tentou.  - Morreu de quê?
- Não diz – respondi, engasgada.
- Que chato. Novo, não? 
- Pois é...
Eu evitava falar o máximo possível. Qualquer palavra podia trazer uma torrente de lágrimas e eu não queria que isso acontecesse na frente do meu marido.
-  Então... O Antônio me chamou pra andar na praia mais cedo. Ele já ta ali na esquina e...
-  Vai lá.
-   Certeza?
               Confirmei com a cabeça. Carlos ainda me olhou por um tempo, tentando investigar minhas verdadeiras emoções mas logo desistiu. Me deu um beijo na cabeça e se preparou para sair. Eu continuei lendo e relendo o obituário. “Família e amigos lamentam o falecimento de JOSÉ PAULO CUSCA Advogado, pai, marido.” Senti o olhar de Carlos me julgando até ele finalmente sair pela porta. Assim que ouvi o barulho do elevador chegando, me permiti chorar.
Sempre me perguntei o quanto Carlos sabia sobre nós dois. Ele sempre teve ciúme do Zé Paulo, o que me faz achar que ele desconfiava de alguma coisa. Mas ele nunca articulou esse ciúme, nunca me colocou contra a parede. E conhecendo o Carlos bem como eu conheço –  vinte e um anos de casamento não são pouca coisa – se, de fato, ele  desconfiasse da profundidade da minha relação com o Zé Paulo, ele teria me confrontado sobre o assunto.
Senti uma dor aguda. Meu coração apertou e tive que fechar o jornal. Iam cremá-lo naquela tarde mesmo. Decidi que eu ia.
Deixei um marido frustrado em casa e fui para o Caju.
            - Não erra o caminho. Lá é perigoso.
Sempre admirei no Carlos o fato de ele se preocupar com meu bem-estar acima de tudo, mesmo quando ele estava magoado.
Revi alguns amigos de faculdade que não via há anos. Me contaram o que aconteceu: um melanoma devastador.
Meu coração partiu em dois quando vi o filho dele de vinte anos agarrado na mãe, agora viúva, chorando como uma criança.  A viúva, o nome me escapa, me viu e me cumprimentou com a cabeça.
Não fiquei para os discursos. Sabia que eu não ia conter minhas lágrimas e as pessoas desconfiariam. Aos olhos dos outros, éramos colegas – amigos – de faculdade que não nos víamos nunca, a não ser em encontros casuais ou reuniões de ex-alunos.
Mas a verdade não é bem essa.
Chegamos a sair algumas vezes na época da faculdade. Ele vivia com um violão debaixo do braço e eu adorava cantar as músicas que ele tocava. Ele sempre elogiava minha voz, o que provavelmente contribuiu para a atração que eu sentia por ele. Ele era o único que elogiava minha voz cantada. Agora, pensando, vejo que talvez fosse o único que a escutasse.  Mas eu me preparava para um intercâmbio, éramos jovens e decidimos não levar aquilo muito a sério. Me despedi dele com um pouco de dor. No fundo, achava que éramos um par perfeito, mas eu era orgulhosa e jovem demais para admitir isso. Quando eu voltei, ele estava envolvido com a mulher com quem ele acabou casando, e eu logo me vi namorando o Carlos.
Tanto eu quanto ele carregávamos uma certa frustração pelo amor que nunca vivemos. Era óbvio. Depois que nos formamos e seguimos nossos próprios caminhos, sempre que nos encontrávamos, o que não era tão freqüente assim, fazíamos questão de saber da vida um do outro. A conversa era sempre olho no olho. Não importava se a esposa dele – porque eu nunca lembro o nome dela? – ou Carlos estivessem presentes. Éramos amigos, ora. E amigos conversam. Mas eu e Zé Paulo éramos cúmplices no nosso sentimento. Algo como uma nostalgia de um futuro que nunca se realizaria, saudades de algo que nunca aconteceu.
Não que fôssemos infelizes nos nossos casamentos. Eu sempre amei o Carlos e tirando as eventuais discussões e pequenas brigas, comuns em qualquer relacionamento, sempre fomos um casal sólido. Carlos é meu parceiro, minha família. Pelo que me parece, Zé Paulo também era feliz no matrimônio. Mas então porque eu sempre me via pensando no Zé Paulo por dias depois que nos encontrávamos? Será que ele também sentia isso?
A resposta veio dias depois do churrasco onde comemoramos dez anos de formados. Zé Paulo decidiu levar o violão e eu, embalada por caipirinhas demais, churrasco de menos e a ausência do marido, que viajava a trabalho, soltei a voz.
           - Sempre gostei da sua voz cantada – ele disse.
            - Sempre gostei do seu violão – respondi, menos tímida do que eu queria.
Zé Paulo olhou o violão dele.
            - É um violão decente, já vi melhores.
Ri mais do que a ocasião pedia.
Eu estava no escritório quando meu telefone tocou, três, quarto dias depois.
- Dona Lígia, é o José Paulo Cusca, ele não disse sobre o que se trata. A senhora atende?
A secretária provavelmente ouviu o meu sorriso.
            - Claro.
Ele estava meio sem jeito. Disse que tinha gostado de me ver, e que estava com um projeto musical. Disse que queria que eu cantasse.
-   E que projeto é esse?
- Porque a gente não se encontra e eu te falo pessoalmente? Vamos marcar num estúdio ali em Botafogo?
             - Estúdio? Profissional, é?
             - Mais ou menos. Te explico.
 Marcamos um horário. Escolhemos a hora do almoço em dia de semana, melhor horário para fugir dos olhares dos cônjuges. Não que a estratégia tenha sido verbalizada na conversa, mas era óbvio.

Cheguei nervosa ao encontro. Tudo aquilo tinha gosto de adultério. A fachada escura da casa, o coração palpitando, o medo que eu tive de alguém me ver. O estranho é que eu não conseguia me imaginar consumando a traição, nem sequer um beijo. Comecei a me perguntar porque eu havia ido. Ainda dava tempo de me virar e ir embora. Ele nem saberia que eu estive lá. Foi quando o vi por dentro de uma janela para dentro do estúdio. Ele estava de camisa social sem gravata e tocava violão com um sutil sorriso no rosto.
Empurrei a porta pesada do estúdio e entrei no ambiente com ar-condicionado forte e cheiro de carpete.

Ele me abraçou. Foi um abraço sincero mas inocente, e logo fiquei mais a vontade.
            - Senta – ele me disse, me indicando um banco alto. Eu obedeci.
- Me conta desse projeto. Estou curiosa. Espero que não envolva cantar em público. Eu nunca cantaria em público.
            - Não. O projeto é esse.
            - Esse o quê? Não entendi.
            - É isso aqui. Eu e você, toda semana, no estúdio.
Ele riu do meu silêncio.
- Eu sei – ele continuou – é uma proposta estranha. Mas deixa eu te explicar.
Ele começou um desabafo. Sobre como a vida de pai, marido e advogado era ótima mas sugava toda sua energia, que ele não encostava no violão há anos, que a mulher não tinha a menor afinidade para música, que o filho não levava o menor jeito, que quando ele soube que eu ia no churrasco ele levou o violão só para que eu cantasse junto, e terminou dizendo que sentia saudades de mim.
Dessa vez ele não riu do meu silêncio. Demorei um tempo, mas consegui falar.
            - Nós dois somos casados. Isso é quase um affair.
            - Pois é, quase. O que é “quase”, não é. 
            - Você usa esse argumento com seus clientes?
- Por favor. A gente faz um pacto. Aqui, agora. A gente só toca. Só faz música. Uma hora por semana, um violão, um microfone. Eu nunca trairia minha esposa, e acho que você não ia gostar de ter um marido corno.
            - Ah, esse argumento você tem que usar com seus clientes.
            - Lígia, é sério.
Pensei uns minutos. Corríamos um risco tremendo. Nada garantia que resistiríamos. Talvez aquela afinidade pudesse se aprofundar ainda mais e destruir um ou ambos os nossos casamentos. Pensei, pensei, pensei.
E estendi minha mão.
             - Fechado.
E assim começou o que carinhosamente chamávamos de “quase-affair”. Ele levava umas músicas, eu levava outras. Chico Buarque, Tom Jobim, Caetano. Candeia, Nelson Cavaquinho, Zé Quéti. Marchinhas, sambas obscuros.
Às vezes ele me dava um dever de casa.
            - Aprende essa música, esse tom é ótimo para você.
Toda quinta-feira, de meio dia e meio a uma e meia da tarde eu fugia do mundo. Soltava a voz, dava risada. Me sentia bonita, jovem, livre. Lógico que nunca comentei nada disso com o Carlos, e imagino que o Zé Paulo também não dizia nada à… ah, sempre esqueço o nome dela. Era nosso segredo, nossa válvula de escape. Finalmente Zé Carlos e eu tínhamos algo que podíamos chamar de só nosso mas que não trazia complicações maiores. Era gostoso ter um segredo compartilhado com ele.
Um dia me surpreendi quando ele disse que já fazia um ano que nos encontrávamos semanalmente. Depois foram dois, três, quatro.
Comemorarmos nosso quinto ano. Até que um dia, quando eu me preparava para ir embora depois de termos cantado “O que é, o que é”, do Gonzaguinha, Zé Paulo me beijou. De repente, sem nenhum sinal prévio de que aquilo aconteceria. Não sei se ele planejava, se o desejo pegou ele de surpresa tanto quanto o beijo pegou a mim. Eu enrijeci meus músculos. Há anos não sentia a pele de outro homem no meu rosto, o cheiro de outro homem tão forte. Mas depois de alguns segundos eu relaxei e me deixei beijar.
Partimos em silêncio. Não voltei ao trabalho. Fui para a casa e pensei naquilo por horas. Não conseguia me sentir culpada, mas não conseguia me imaginar fazendo aquilo de novo.
Na quinta-feira seguinte, não sabia o que fazer. Passei a manhã inteira pensando se eu ia ou não. Quando bateu meio dia, respirei fundo, peguei as chave do carro e parti.
O rapaz do balcão disse que ele não estava lá e que não havia feito reserva para aquela semana. Agradeci e fui embora. Eu sabia que nosso “quase-affair” tinha chegado ao fim.
Nunca mais vi o Zé Paulo, a não ser um dia na televisão, ele falava qualquer coisa sobre uma aquisição de um banco por outro. Não lembro bem. Não o via já há uns sete anos e fiquei chocada o quanto ele havia envelhecido. O que me entristeceu mais ainda foi que ele pensaria o mesmo se ele me visse.
E aí ontem, um belo domingo de sol no verão do Rio de Janeiro, abro o obituário e lá está o nome dele, estampado em letras garrafais. JOSÉ PAULO CUSCA. Advogado, pai, marido.

E músico.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Ópera Chinesa

- Lu, você quer ir com a gente ver "Monkey: Journey to the West" na terça-feira? -, pergunta minha prima querida, que visita Nova Iorque.
- Sim! - respondi empolgadamente. - Estou louca para ver esse show. É o novo projeto do pessoal do Gorillaz, não é? O Cameron vai querer ir com certeza também. 

Assim se estabeleceu o nosso compromisso cultural de terça a noite. Aproveitando a visita de outros primos e do meu afilhado, fui passar dois dias na casa da minha mãe, aonde eles estão hospedados, a duas horas de distância de NY. Quando meu afilhado perguntou porque eu tinha que voltar cedo, respondi. Tenho um show maravilhoso para ir, já tenho ingresso. Minha mãe ficou chateada porque não inclui meu irmão no programa.
- Ele está de férias, adora essas coisas. Tenta comprar pra ele também, por favor! 

De última hora, conseguimos um ingresso para o meu irmão. Tudo muito corrido - ele teria que tomar banho e sair de casa naquele instante para pegar o trem e chegar a tempo. Enquanto isso, eu estava na estação de trem, para pegar o meu transporte de volta, tudo com bastante tempo para eu aproveitar esse tão sonhado espetáculo.

Ligo para o meu irmão: ele vai pegar o trem dez minutos depois do meu. Combinamos de nos encontrar na estação e irmos para o teatro juntos.

Cinco minutos depois, entre as estações "Nada" e "Coisa Alguma", o meu trem quebra. 

Começo a ficar tensa: não vai dar tempo de eu chegar antes do show começar. Vou atrasar! Vai ter gente me esperando! A minha ansiedade vai crescendo, crescendo. Minha bateria do celular vai acabando, acabando. 

Fico esperando no meio do nada num calor infernal até outro trem vir nos buscar. 

Enquanto isso, Cameron me manda uma mensagem: 
- Porquê você está me arrastando para uma ópera chinesa?
- Não é ópera chinesa, meu amor. É um espetáculo meio circense, adaptado pelo pessoal do Gorillaz. Você vai amar. Vai por mim -, respondi, já pensando nos pontos que eu ia ganhar com o maridão, no beijo que ele ia me dar no final, me agradecendo pela experiência cultural inédita. 
- Na internet diz que é ópera chinesa. 
Eu, do alto do meu moralismo e senso de falsa superioridade cultural, respondo:
- Mesmo se for. Pare de preconceitos. Você está se baseando no estereótipo que você tem de óperas chiensas. É 2013, as coisas mudaram. Você vai ver - disse, já não tão segura do que eu estava falando.

O trem chega na estação às 20h, exatamente o horário que o show começa. Corro do trem para o metrô, para o outro metrô sem ar-condicionado, esbarrando em velhos, crianças e mulheres, pulando muros e fugindo de cães raivosos. "Preciso chegar no show a tempo", pensava. "Nada pode me deter". 

 Saio na estação do teatro, vejo o Cameron e o meu irmão pacientemente me esperando do lado de fora. Chego suando bicas - está quarenta graus, úmido e eu estou carregando uma mochila de 12kg.  Minhas primas e minha tia já estão do lado de dentro. Eu as invejo por cada minuto desse espetáculo maravilhoso que elas estão experenciando e eu não.

Entramos no teatro com quase meia hora de atraso. 

Sentamos, e olhamos para o palco. 

Trata-se, claro, de uma ópera chinesa. E, infelizmente, o estereótipo do que eu tinha do que é uma ópera chinesa estava absolutamente correto. 

Aí eu começo a pensar na ironia daquilo tudo. 

Na correria, no estresse que senti quando quase perdi o trem, no estresse ainda maior quando o trem quebrou, na preocupação do meu irmão chegar a tempo. 

E eu começei a rir. Rir muito. Ataques de riso. Lágrimas e mais lágrimas. Meu irmão e Cameron me olham com uma certa inveja. "Pelo menos alguém está se divertindo", eu leio em seus olhares. 

Saímos do teatro e compartilhamos a nossa incredulidade. Tudo era ruim: a dança, a música, a história.

Eu e Cameron, irritados com a perda de tempo, distribuímos patadas no metrô. Verdadeiros nova-iorquinos.

Chegamos em casa e Cameron, sem me perguntar nada, colocou uma luta antiga de MMA. Eu vi que ele precisava daquilo. Qualquer outro dia eu reclamaria.

Mas hoje não.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Memória Olfativa

            Memória Olfativa

O olfato é o mais  injustiçado dos sentidos. A maioria das pessoas não teria dúvida em colocá-lo em último na hierarquia sensorial. Eu acho uma pena. Eu sou fã do olfato. Para mim, ele é capaz de trazer memórias à tona mais do que qualquer outro sentido. Mais do que uma foto da sua casa da infância. Mais do que a música que você escutava repetidamente quando se apaixonou pela primeira vez.
            Basta vir um cheiro familiar que sou instantaneamente transportada para o passado. O cheiro do incenso que imediatamente fazia minha mãe bater na porta do meu quarto. “O que você está fazendo aí dentro?”. O cheiro daquele perfume que aquele gatinho da faculdade estava usando quando te beijou na choppada. “Polo Sport?” “Não, Drakkar”.

            Eu não moro no Brasil. Sempre que venho, uma das primeiras coisas que me fazem ter certeza de que voltei para casa são os cheiros. Cheiro da feira; cheiro da chuva na calçada quente depois de um árduo dia de verão; o cheiro da casa da minha avó, que mesmo que ela se mude, permanece o mesmo; cheiro de milho verde sendo cozido nas calçadas.

Sempre que venho ao Brasil, aproveito para trazer aquelas peculiaridades que só achamos lá. Sabonete Granado (hmm, lavanda!), farinha de mandioca, (há cheiro melhor do que farofa na manteiga?) e, pasmem, desodorante Dove spray.
            Procurei o raio do desodorante nos Estados Unidos inteiro até me conformar que o produto fazia parte do grupo seleto que também contém polvilho e cachaça. Então nada mais natural do que trazer o desodorante na mala, não é?

            No meu primeiro banho pós-retorno, abri aquela tampinha azul meio transparente e, feliz, dei minha primeira sprayzada. Imediatamente, o banheiro foi tomado por um odor muito familiar. Nostálgico. Mas uma nostalgia peculiar, por ser genérica. Não sabia o que aquele cheiro me lembrava, mas era uma sensação estranha, que continha alegria e tristeza, saudades e alívio, tudo ao mesmo tempo. Mas não conseguia especificar a que evento, pessoa ou lugar aquele odor me remetia.

            Passei o dia pensando nos cheiros da minha vida, na tentativa de lembrar o de onde eu conhecia aquele cheiro:

Cheiro da Vila na Puc que mudou no decorrer dos meus anos de faculdade. O cheiro da minha academia de Karatê, que era exatamente o mesmo quando fui visitá-la dez anos depois da minha última aula. Cheiro de Jardim de Infância – sempre o mesmo, indepentente do colégio que você estudou. Cheiro do meu irmão quando era recém-nascido, compartilhado por todos os recém-nascidos.
E aí, em um dos meus banhos com meu precioso desodorante, me veio a resposta.
Aquele cheiro era eu!
           
Mas uma outra ‘eu’. Uma ‘eu’ tão distante do que sou agora que parecia ser outra pessoa. Aquela garota insegura, corcunda, tristinha que se escondia atrás da máscara da farra,  que achava que não merecia o amor de ninguém, apesar de aceitá-lo de bom grado. E aí eu percebi que aquela garota não existe mais.
           
Joguei o desodorante fora.

Agora uso roll-on.