Não é fácil ter a vida fácil.
Sim, eu sofro do complexo de culpa. Também pudera, sou filha de um judeu com uma católica. Culpa ao quadrado. Culpa ad infinitum.
Estou presa num ciclo vicioso. Sinto que a vida está difícil. Me preocupo com a grana do aluguel, que nem sempre está garantida. Me estresso com a minha festa de casamento vindoura. Sinto saudades dos amados, que são muitos, e estão muito distantes.
Daí penso que esses são todos problemas pequenos, no plano cósmico. Eu tenho um teto aonde morar, um futuro-marido que, diferente de mim, tem emprego fixo. Sou sortuda o suficiente para poder ter uma linda festa de casamento. Tenho muitos amigos queridos e amados, mesmo que distantes. Aí fico culpada por estar tão emotiva, o que me deixa mais emotiva ainda.
E, ao invés de canalizar essas emoções todas nos projetos nos quais tenho que trabalhar, fico completamente paralisada. Não posso nem usar o clichê de que fico encarando a página em branco. Eu evito essa página em branco como um vampiro (e alguém em início de namoro) evita alho. Passo longe do meu computador. Sinto ele me olhando (culpa!), me chamando para o trabalho. E eu evito, procrastino. Tento arrumar outras coisas para fazer. A casa nunca esteve tão arrumada, e é a primeira vez desde que saí da casa dos meus pais que meu cesto de roupa suja está vazio.
Aí me sinto improdutiva e, portanto, culpada, e aí mais uma etapa do ciclo se cria.
O que fazer? Reclamar no blog, é claro. Pois aí eu tenho que encarar o quão boba eu estou sendo. Aí tenho que pensar nos meus amigos, principalmente no Claudio, que vão pensar "mas ela tá reclamando de quê?". E eu lhes respondo: NÃO SEI! Eu concordo com o Claudio de que eu estou sendo, na palavra que ele provavelmente escolheria, mongol.
Ouvi das duas pessoas que mais me conhecem no mundo que eu estou me cobrando demais. É o mês do meu casamento, a próxima etapa da minha carreira não está definida, chegou a hora de encarar que sou gente grande. É normal eu estar sentindo o que quer que seja intensamente. É quem eu sou, é o por quê de eu fazer o que eu faço.
O que me leva a pensar, também, em porque eu decidi ser artista. Quero dizer que acho isso muito pretensioso: "sou artista". Mas é o que eu faço: arte. Não só arte, pois trabalho com entretenimento, e, para mim, entretenimento é tanto business quanto arte, mas é arte. Como artista, eu não posso ter medo de sentir intensamente, seja lá o que for. Alegria, ansiedade, tristeza, desespero. Eu gosto de sentir, mesmo quando dói. Eu me deixo sentir.
Ih, olha lá. A página não está mais em branco.
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