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quarta-feira, 10 de julho de 2013

Memória Olfativa

            Memória Olfativa

O olfato é o mais  injustiçado dos sentidos. A maioria das pessoas não teria dúvida em colocá-lo em último na hierarquia sensorial. Eu acho uma pena. Eu sou fã do olfato. Para mim, ele é capaz de trazer memórias à tona mais do que qualquer outro sentido. Mais do que uma foto da sua casa da infância. Mais do que a música que você escutava repetidamente quando se apaixonou pela primeira vez.
            Basta vir um cheiro familiar que sou instantaneamente transportada para o passado. O cheiro do incenso que imediatamente fazia minha mãe bater na porta do meu quarto. “O que você está fazendo aí dentro?”. O cheiro daquele perfume que aquele gatinho da faculdade estava usando quando te beijou na choppada. “Polo Sport?” “Não, Drakkar”.

            Eu não moro no Brasil. Sempre que venho, uma das primeiras coisas que me fazem ter certeza de que voltei para casa são os cheiros. Cheiro da feira; cheiro da chuva na calçada quente depois de um árduo dia de verão; o cheiro da casa da minha avó, que mesmo que ela se mude, permanece o mesmo; cheiro de milho verde sendo cozido nas calçadas.

Sempre que venho ao Brasil, aproveito para trazer aquelas peculiaridades que só achamos lá. Sabonete Granado (hmm, lavanda!), farinha de mandioca, (há cheiro melhor do que farofa na manteiga?) e, pasmem, desodorante Dove spray.
            Procurei o raio do desodorante nos Estados Unidos inteiro até me conformar que o produto fazia parte do grupo seleto que também contém polvilho e cachaça. Então nada mais natural do que trazer o desodorante na mala, não é?

            No meu primeiro banho pós-retorno, abri aquela tampinha azul meio transparente e, feliz, dei minha primeira sprayzada. Imediatamente, o banheiro foi tomado por um odor muito familiar. Nostálgico. Mas uma nostalgia peculiar, por ser genérica. Não sabia o que aquele cheiro me lembrava, mas era uma sensação estranha, que continha alegria e tristeza, saudades e alívio, tudo ao mesmo tempo. Mas não conseguia especificar a que evento, pessoa ou lugar aquele odor me remetia.

            Passei o dia pensando nos cheiros da minha vida, na tentativa de lembrar o de onde eu conhecia aquele cheiro:

Cheiro da Vila na Puc que mudou no decorrer dos meus anos de faculdade. O cheiro da minha academia de Karatê, que era exatamente o mesmo quando fui visitá-la dez anos depois da minha última aula. Cheiro de Jardim de Infância – sempre o mesmo, indepentente do colégio que você estudou. Cheiro do meu irmão quando era recém-nascido, compartilhado por todos os recém-nascidos.
E aí, em um dos meus banhos com meu precioso desodorante, me veio a resposta.
Aquele cheiro era eu!
           
Mas uma outra ‘eu’. Uma ‘eu’ tão distante do que sou agora que parecia ser outra pessoa. Aquela garota insegura, corcunda, tristinha que se escondia atrás da máscara da farra,  que achava que não merecia o amor de ninguém, apesar de aceitá-lo de bom grado. E aí eu percebi que aquela garota não existe mais.
           
Joguei o desodorante fora.

Agora uso roll-on.



            

Um comentário:

  1. SUA LINDA!
    Me derreto com seus textos e com a pessoa que vc se transforma a cada dia. #prontofalei

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