Memória
Olfativa
O olfato é o mais injustiçado dos sentidos. A maioria das
pessoas não teria dúvida em colocá-lo em último na hierarquia sensorial. Eu
acho uma pena. Eu sou fã do olfato. Para mim, ele é capaz de trazer memórias à
tona mais do que qualquer outro sentido. Mais do que uma foto da sua casa da
infância. Mais do que a música que você escutava repetidamente quando se
apaixonou pela primeira vez.
Basta
vir um cheiro familiar que sou instantaneamente transportada para o passado. O
cheiro do incenso que imediatamente fazia minha mãe bater na porta do meu
quarto. “O que você está fazendo aí dentro?”. O cheiro daquele perfume que
aquele gatinho da faculdade estava usando quando te beijou na choppada. “Polo
Sport?” “Não, Drakkar”.
Eu
não moro no Brasil. Sempre que venho, uma das primeiras coisas que me fazem ter
certeza de que voltei para casa são os cheiros. Cheiro da feira; cheiro da
chuva na calçada quente depois de um árduo dia de verão; o cheiro da casa da
minha avó, que mesmo que ela se mude, permanece o mesmo; cheiro de milho verde
sendo cozido nas calçadas.
Sempre que venho ao Brasil,
aproveito para trazer aquelas peculiaridades que só achamos lá. Sabonete
Granado (hmm, lavanda!), farinha de mandioca, (há cheiro melhor do que farofa
na manteiga?) e, pasmem, desodorante Dove spray.
Procurei
o raio do desodorante nos Estados Unidos inteiro até me conformar que o produto
fazia parte do grupo seleto que também contém polvilho e cachaça. Então nada
mais natural do que trazer o desodorante na mala, não é?
No
meu primeiro banho pós-retorno, abri aquela tampinha azul meio transparente e,
feliz, dei minha primeira sprayzada. Imediatamente, o banheiro foi tomado por
um odor muito familiar. Nostálgico. Mas uma nostalgia peculiar, por ser
genérica. Não sabia o que aquele cheiro me lembrava, mas era uma sensação estranha,
que continha alegria e tristeza, saudades e alívio, tudo ao mesmo tempo. Mas
não conseguia especificar a que evento, pessoa ou lugar aquele odor me remetia.
Passei
o dia pensando nos cheiros da minha vida, na tentativa de lembrar o de onde eu
conhecia aquele cheiro:
Cheiro da Vila na Puc que mudou no
decorrer dos meus anos de faculdade. O cheiro da minha academia de Karatê, que
era exatamente o mesmo quando fui visitá-la dez anos depois da minha última
aula. Cheiro de Jardim de Infância – sempre o mesmo, indepentente do colégio
que você estudou. Cheiro do meu irmão quando era recém-nascido, compartilhado
por todos os recém-nascidos.
E aí, em um dos meus banhos com meu
precioso desodorante, me veio a resposta.
Aquele cheiro era eu!
Mas uma outra ‘eu’. Uma ‘eu’ tão
distante do que sou agora que parecia ser outra pessoa. Aquela garota insegura,
corcunda, tristinha que se escondia atrás da máscara da farra, que achava que não merecia o amor de
ninguém, apesar de aceitá-lo de bom grado. E aí eu percebi que aquela garota
não existe mais.
Joguei o desodorante fora.
Agora uso roll-on.
SUA LINDA!
ResponderExcluirMe derreto com seus textos e com a pessoa que vc se transforma a cada dia. #prontofalei