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quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Os Camundongos



Decidi ignorar aquele barulho que parecia vir de dentro de um dos armários da cozinha. O meu frango brilhava dentro do forno. Um cheiro de alho, ervas e gordura estava me deixando com ainda mais fome.

Mas o barulho foi ficando mais alto e mais repetitivo.

- Vocês estão ouvindo isso?

- Cameron e seu amigo esperaram em silêncio.

- Não – disseram.

Coisa da minha cabeça. Eu havia visto uma barata no banheiro mais cedo, achei que estava paranóica. “A vida não é como nos filmes”, pensei. Não há pistas sobre o que vai acontecer no futuro, como nas películas.

Mas o barulho veio de novo. Alto, inconfundível.

- Ouvi! Eu ouvi – disse o amigo do Cameron, parecendo comemorar vitória em uma brincadeira. – Isso aí é barulho de camundongo. Nova Iorque, né? Fazer o quê.

Fazer o quê? Achei a atitude dele tão… resignada!

Como sempre, reagi de forma madura. Saí correndo da cozinha dando gritos histéricos (e honestos) de nojo e tranquei a porta do quarto. Porque camundongos respeitam portas trancadas, não é mesmo?

- Opa, porta trancada! Melhor desistir de atormentar essa pobre coitada e procurar portas mais abertas.

No dia seguinte, liguei às 7:30 da manhã para os exterminadores. Para a minha surpresa, eles atenderam. Eles têm alguém atendendo telefonemas vinte e quatro horas por dia.

- É Nova Iorque – disse a moça simpática na linha. – Você acabou de se mudar?

- Não! Já estou aqui há três anos.

- E é a primeira vez que tem camundongo em casa?

- É!

- Nossa, sortuda. Melhor do que ter barata. 

Não quis discordar da lógica de louca dela, mas comecei a perceber que havia uma certa conspiração. Desde quando é normal ter camundongo em casa em Nova Iorque? Ninguém me avisou!! Eu teria reconsiderado! 

O exterminador veio. Me explicou coisas terríveis. As que eu me lembro: camundongos escalam paredes, e se passa uma caneta bic, passa um camundongo.

Ele deixou ratoeiras pela casa e se despediu me tranquilizando.

Dois dias depois, eu preparava uma super refeição. Fraldinha na panela e no forno e flores de zucchini recheadas com ricotta. Um amigo meu veio nos visitar. Conversávamos sobre isso e aquil quando de repente—

- O camundongo.

- Aonde? – Perguntou Cameron.

- Ali ali ali aliiiii – eu disse, abraçando as pernas e entrando num espécie de surto.

- Ali, ó – disse Rohan, meu amigo. Tem um embaixo da geladeira e outro aqui mais perto.

OUTRO. DOIS CAMUNDONGOS. Na minha cozinha! Reagi de forma natural: lágrimas e mais lágrimas.

Rohan disse: melhor do que ter baratas. Cameron concordou. No meu surto psicótico, não consegui falar o quanto eu discordava dessa noção.

O problema não terminou por aí. Resumindo. Um dos camundongos morreu na ratoeira instantaneamente e o outro desapareceu.

No ínterim, liguei para minha irmã.
 
- Ah, eles são fofos. Já assistiu Ratatouille? Ah, melhor do que ter barata, vai?

O QUE ESTÁ ACONTECENDO COM O MUNDO? CAMUNDONGOS SÃO PIORES QUE BARATAS! São mamíferos! Eu não mato mamíferos! Tenho crise de consciência toda vez que eu como carne! Cameron já me disse que eu estou proibida de dizer que vacas têm melhores amigos toda vez que ele mete a faca naquele Rib Eye suculento que eu sei fazer.

O problema parecia estar sob controle.

Quer dizer, até outro dia, quando ele passou correndo. No meio da sala. Gritei de forma histérica. Até eu me incomodei com o quão mulherzinha eu estava sendo, mas foi reflexo, não consegui me controlar.

Para o meu alívio, o camundongo entrou numa das armadilhas. É armadilha de veneno: ele anda naquilo e morre intoxicado alguns dias depois.

O camundongo, provavelmente se sentindo seguro na sua nova casinha – a armadilha – passou a nos observar. Estávamos eu, Cameron e o cachorro (que, distraído com a maçã que comíamos, nem percebeu o bicho, minando a minha tese de que se o cão estava tranquilo, o rato não estava por perto), e eu vi o pequeno bico, com suas patinhas apoiadas na “janela”, olhando para nós com a cabeça inclinada. Pensei nos ratinhos do Ratatouille, ELE SÓ QUERIA COZINHAR EM PARIS!!!

E aí eu fui tomada por pena.

Comecei a chorar. E muito.

- Mas e se ele só está aqui procrando o seu amiguinho? Que morreu? E agora a gente envenenou ele e ele vai morrer aos poucos, sofrendo!

Cameron respirou fundo. Em momentos como esse eu vejo o quanto ele me ama – eu chorei por ter ratos e depois chorei por que eu estava o assassinando e Cameron, pacientemente, me consolou ambas as vezes.

Fazem três dias que eu vi o camundongo e acho que agora ele está morto em algum canto da minha casa. Já procurei pelo corpo, sem sucesso.

Tenho ilusões de que ele escapou, está numa comunidade de camundongos holísticos que curaram o seu envenanemento com yoga e massagens. Ele reencontrou a sua família e contou da sua aventura, numa casa cheia de armadilhas e um cachorro distraído e agora está decidido a seguir o seu sonho de ser chef de cuisine.

Desculpa, camundongo. Eu não queria ter te matado.





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